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Simone Bortoliero  

Entrevista com Simone Bortoliero


    A paulista Simone Bortoliero é coordenadora do primeiro curso de especialização em jornalismo científico e tecnológico da Bahia, estado onde ensina há dez anos na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Mestre e Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, Simone lançou recentemente o livro "Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica: leituras contemporâneas" (EDUFBA, R$35), do qual é coautora. No ELSA Brasil, além de compor o grupo de 2 mil servidores participantes da pesquisa no Centro de Investigação baiano, teve papel fundamental na formação do Núcleo de Comunicação do estudo.


    ELSA Brasil: Você fez parte da formação do núcleo de comunicação do ELSA. Como vê a importância desse estudo no contexto brasileiro e o investimento em jornalismo científico no país?

    Simone Bortoliero: O núcleo foi formado por pessoas da saúde e da comunicação. Pude entender que, nesse tipo de pesquisa, o Brasil se situava em um contexto muito baseado nos dados estatísticos que vinham de outros países. Então, como iríamos traçar uma política de saúde pública eficiente para o adulto, se todas as pesquisas com as quais vínhamos trabalhando em anos anteriores são de uma realidade do contexto internacional? O ELSA tem um valor único por reunir, a nível nacional, um conjunto de servidores de seis instituições que vão contribuir com políticas públicas na área da saúde do adulto. É uma possibilidade de, através do levantamento de dados locais, contribuir com um debate sobre que saúde do adulto nós falamos e quais são as principais doenças que acometem a saúde da população brasileira. Outra questão importantíssima se refere à escolha da Bahia, porque aqui tem a maior população afrodescendente do país. Então vamos entender mais um pouco da saúde dos negros brasileiros, algo que é bastante reivindicado pelas comunidades afrodescendentes. A terceira questão envolve a universidade e como conseguir reunir homens e mulheres de uma determinada faixa etária para conhecer um pouco da realidade da hipertensão e diabetes no país. Reunir tudo isso num projeto de comunicação envolvendo pessoas que são de áreas diferentes, mas estão comungando nessa interface comunicação e saúde é um grande desafio. Importante ressaltar a importância da comunicação para ajudar essas pessoas, que serão acompanhadas durante longos anos, a continuarem nesse projeto. Portanto, esse é um ponto fundamental para ter um bom resultado de pesquisa.

      E.B.: Como avalia a eficiência das políticas públicas para a divulgação científica e quais ações destaca?

    S.B.: A minha realidade hoje é a Bahia e aqui nós temos alguns problemas. Temos o investimento do governo estadual, do ponto de vista das agências como a Fapesb, durante a Semana de Ciência e Tecnologia, que ocorre desde 2004. O governo Lula instituiu essa semana nacional visando popularizar o conhecimento científico. Na universidade, vejo que a UFBA cresceu nos últimos anos. Mas eu acho que a popularização da ciência e a divulgação científica na Bahia ainda não se tornaram políticas de Estado, que é o que tem que ser, e não uma política de governo. Para isso, a Fapesb precisa reconhecer a necessidade de investimento em editais que tratem da mídia e da ciência. Além disso, precisamos trabalhar para melhor formação de jornalistas para trabalhar com jornalismo científico nos veículos tradicionais da cidade. Então estamos em um processo: formando jornalistas, formando grupos de pesquisadores mestres e doutores nessa área.  Bem diferente do eixo Rio-São Paulo, onde a divulgação científica já existe de forma bem organizada desde a década de 80.

     E.B.: Considerando a necessidade de ciência e divulgação caminharem juntos, como avalia certos bloqueios que pesquisadores têm com a imprensa e como você vê essa relação?

    S.B.: Essa sempre foi uma relação bastante conflituosa, ou por uma má formação dos jornalistas para tratar de temas de ciência, ou por uma má compreensão dos pesquisadores no uso do jargão científico e por não quererem entender que falar para o grande público é tão importante quanto publicar um artigo em uma revista especializada. Inclusive, eu acho que o sistema de avaliação da Capes deveria ser mudado, deveria ser dado um peso relevante para os pesquisadores que fazem divulgação científica, assim como existe um peso para quem publica em revistas qualis A, qualis B, qualis C. No Brasil, dos anos 80 para cá, eu acho que melhorou muito.  Temos muito mais pesquisadores falando em veículos de comunicação. Criou-se o Globo Ciência, revistas como Super Interessante, se teve um avanço da revista Ciência Hoje, tanto para criança, quanto para adulto. A própria Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência investiu nessa área com produtos online e revistas impressas. A própria Fapesp tem sua revista. A UNB agora está criando um portal institucional de divulgação científica. Acho que tem que haver esse investimento nos produtos, a internet ajuda muito nesse sentido, para que haja espaço para o pesquisador falar e fazer com que essa relação entre jornalistas e cientistas se torne mais dinâmica em prol da democracia e do conhecimento científico, em prol da acessibilidade desse conhecimento para o cidadão comum.

    Acho ainda que isso vai avançar se a gente capacitar também os pesquisadores, chamá-los para a responsabilidade fazendo com que entendam que o processo de divulgação faz parte de uma prestação de serviço à população. Grande parte do dinheiro investido em pesquisa é público e os pesquisadores precisam ter consciência do seu papel, que é também o de contribuir com a democracia. Acho que não se trata de uma relação individual: "eu gosto disso e vou divulgar porque acho bonito divulgar o que estou fazendo". Não, acho que é um compromisso social que ambos os setores devem ter, tanto a mídia e os jornalistas com suas experiências, assim como os pesquisadores.

    Para fazer essa relação ser boa é preciso investir na formação dos jornalistas e também na formação dos pesquisadores. Os pesquisadores precisam ter uma idéia de como a mídia funciona. A gente pode dar curso de comunicação e saúde para os hospitais, por exemplo. E fazer com que os profissionais de lá entendam como a mídia funciona por dentro. Podemos criar manuais para as redações para explicar como a comunidade científica se relaciona. É preciso criar mecanismos de facilitação, de diálogo entre os setores.

Simone Bortoliero
"Falar para o grande público é tão importante quanto publicar um artigo em uma revista especializada"

    E.B.: Quais as especificidades da formação de um jornalista científico e, nesse aspecto, qual a importância do curso de especialização em jornalismo científico que você coordena na Faculdade de Comunicação da Ufba?

   S.B.:  Essa ideia do jornalista geral é aparentemente bonita. A formação do jornalista na Bahia está muito debilitada. Mesmo estando em uma universidade federal, a grade curricular não garante aos estudantes uma formação multidisciplinar. Eles precisariam saber mais de economia, política, cultura, mas também saber mais de ciência. O jornalista científico precisa entender da filosofia, da sociologia e da história da ciência, ele tem que entender de temas que muitas vezes não estão disponíveis nos cursos de comunicação. Então, ou ele busca a especialização fora da graduação, ou ele, enquanto está em uma universidade federal ou estadual que possibilita esse trânsito entre os créditos, busca essas disciplinas em outras unidades. Eu acho que a comunicação não é suficiente para um bom jornalista de ciência. A Associação Brasileira de Jornalismo Científico considera que os cursos de graduação deveriam ter optativas desse segmento dentro da grade. A Facom não tem optativa, a gente dá as disciplinas camufladas de outros nomes, como jornalismo especializado, tópicos em jornalismo. Ou seja, temos que recorrer aos cursos de especialização para capacitação dos jornalistas. "Mas o jornalista especializado delimita o campo e atuação do mercado de trabalho?". Não, eu acho que o mercado de trabalho tem que se abrir para o jornalismo especializado.

    Nós estamos no ano internacional da química. Quais os jornalistas em Salvador têm condições de falar da contribuição da química, ou de sua não-contribuição, os seus avanços, seus retrocessos, seus problemas, os benefícios trazidos para o planeta? Quem seriam os jornalistas capazes de falar sobre isso? Poucos ou ninguém. Em âmbito nacional há vários cursos de especialização na área, com vários enfoques. Mas eu acho que essa formação tem que ser de base humanística, trazendo conhecimento não só da área da comunicação, como filosofia, história da ciência, educação e cultura científica. Além de empreendedorismo, afinal os jornalistas têm que ser empreendedores. Nós temos poucos produtos midiáticos e de comunicação na área da ciência, então é um bom momento para o mercado de Salvador se abrir. As assessorias de comunicação das universidades não trabalham com divulgação científica, por exemplo, então há mercado para esse jornalista.

    E.B.: O curso tem como produto final uma Agência de Ciência e Tecnologia. Qual a importância da agência de divulgação científica para a universidade? Quais têm sido as principais dificuldades na implementação?

    S.B.: Nós temos uma grande universidade federal, universidades estaduais e particulares produzindo conhecimento. Temos a maior instituição de pesquisa na área da saúde, que é a Fiocruz, na Bahia. Temos a Embrapa, que produz conhecimento em toda área de agronegócio, rural, conhecimento de mudanças climáticas. Temos a Petrobras produzindo conhecimento com muitas pesquisas em andamento. É inadmissível que essa produção de conhecimento não seja visível na mídia nacional. Esse é o papel da agência: tornar visível a produção científica na Bahia. Não de uma única instituição, mas em âmbito estadual. A ciência tem que fazer parte da cultura do baiano, nós somos um local de conhecimento. Produzimos música, carnaval, axé, mas também produzimos ciência. Outro produto do curso é uma revista na área de inovação com a perspectiva de mostrar essa relação público-privado. O que está se inovando do ponto de vista empresarial - que você pesquisa e a empresa aglutina. Além de ver o que a Bahia está registrando de patentes.

    A grande dificuldade é manter jornalistas formados e capacitados trabalhando com bolsas, boas bolsas. Quero criar na agência uma realidade de mercado. Sair do aspecto meramente acadêmico para ser um produto jornalístico de fato. Queremos que a agência se torne importante para o estado e, para isso, precisamos de bons profissionais. Outra dificuldade é fazer com que o pesquisador tenha um espaço para escrever, não só pra discutir sua pesquisa, mas também a política científica, discutir o que ele pensa de ciência na Bahia.

    E.B.: Quanto ao livro "Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica: leituras contemporâneas", recentemente lançado pela Edufba, como foi o processo de seleção dos artigos publicados e como avalia a diversidade das áreas envolvidas?

    S.B.: Junto com alguns outros professores do Grupo Cultura e Ciência, do Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, resolvemos reunir trabalhos de professores colegas, alguns deles professores da especialização. Tem artigo meu, de Audre Alberguinim, Graça Caldas, Cristiane Porto, Antonio Marcos Brotas, de Lígia Rangel, além do professor Wilson Bueno, responsável pela primeira tese de doutorado no Brasil na área de jornalismo científico. Convidamos colegas da área para mostrar como a divulgação científica se aplica em várias áreas do conhecimento. O objetivo é discutir o que é a cultura científica. O livro traz a possibilidade de debater esse conceito e ver como é que a gente pode trabalhar com divulgação na Bahia e também em outros locais. Tem temas de meio ambiente, saúde, arte reunidos para mostrar que também aqui na Bahia estamos produzindo conhecimento nessa área.

Simone Bortoliero
Fotos de Alexandro Mota

    E.B.: Você acha que o conhecimento da academia tem sido replicado em termos práticos? Esse conhecimento tem sido de fácil acesso à população interessada?

    S.B.: Para que o conteúdo científico esteja presente desde a base e os alunos saibam o que é "Ciência", é preciso investimento massivo na educação, na formação dos professores e na rede básica. Atualmente, o que está acontecendo com o conteúdo científico ministrado no ensino regular, sem qualidade, faz com que os alunos cheguem ao ensino superior com essa visão de ciência deturpada, fora da realidade.

    A popularização da ciência não pressupõe que estou divulgando conteúdo científico. A divulgação científica tem relação com os museus de ciências que as crianças podem visitar para brincar com equipamentos e entender a lei da gravidade. Ela não vai ver a formula lá exposta, vai entender por outras vias. Ter uma relação diferente da química do cotidiano, a física do dia-a-dia. E na área de ciências humanas é entender o porquê a filosofia é importante para minha vida, como posso ser mais reflexivo diante das coisas que vou lidar no dia-a-dia. Enfim, desmistificar essa ideia de que o conteúdo tem a ver com a educação formal e seus modelos. A divulgação científica não está preocupada com conteúdo científico, está preocupada em aproximar a ciência produzida por uma instituição de pesquisa do cidadão, mostrando sua aplicabilidade, mas também em mostrar que a ciência pode se tornar mais palatável, uma coisa que faz parte da nossa vida. É uma coisa que o professor Carlos Vogt falou [na palestra de lançamento do livro Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica]: quando a ciência for igual ao futebol, uma coisa que todo mundo acha que entende, mas ninguém é técnico, então teremos alcançado um dos objetivos da divulgação científica.



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