ELSA Brasil: Em 2001, o Ministério da Saúde implantou o Plano de Reorganização da Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes Mellitus. O objetivo era reestruturar a rede básica dos serviços de saúde para aumentar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento dessas doenças. Em sua opinião, quais foram os avanços obtidos desde então?
Maria Inês Schimidt: O Plano foi muito feliz na sua concepção, na medida em que buscou viabilizar o atendimento de quem tem diabetes na rede básica de saúde. No curto prazo, observou-se um aumento no número de casos conhecidos de diabetes e hipertensão, fruto da campanha nacional de detecção efetuada.
Houve também um aumento no número de casos inseridos em serviços de saúde, resultado do treinamento das equipes de saúde e das políticas de distribuição de medicamentos e outros insumos na rede básica. Posteriormente, foram implementadas ações e políticas visando ao fortalecimento da Atenção Básica no país. O que pode ter um impacto maior a médio e longo prazo.
E.B.: Estresse emocional, alimentação incorreta, uso constante de bebidas alcoólicas e sedentarismo têm um papel influenciador no avanço e até surgimento do diabetes – um tipo da doença é decorrente do consumo de álcool em demasia. Há muitos estudos que investigam os determinantes sociais do diabetes?
M.I.: O diabetes tipo 2, o tipo mais freqüente de diabetes, resulta de uma combinação de fatores que levam à deposição central de gordura, incluindo órgãos como fígado, coração e pâncreas. Entre esses fatores, os mais estudados sãos os hábitos alimentares inadequados e a baixa atividade física. Os determinantes sociais, causas das causas, têm sido menos estudados.
O ELSA foi cuidadosamente delineado para permitir investigar em profundidade as inter-relações distantes e próximas na trilha de causalidade do diabetes, permitindo, por exemplo, estudar a situação sócio-econômica, o estresse crônico e os hábitos de vida que, no conjunto, podem levar pessoas suscetíveis geneticamente a desenvolver diabetes.
E.B.: A senhora acha que as políticas públicas de saúde têm incluído suficientemente a divulgação desse tema para a população?
M.I.: Para que as pessoas possam cuidar com autonomia de si próprias e zelar pela saúde dos que lhe são próximos, é preciso que elas tenham acesso ao conhecimento relevante sobre promoção de saúde. Por isso, minha resposta é não. Faltam informações. Elas são contraditórias e muitas vezes são direcionadas na mídia mais por interesses comerciais do que por relevância epidemiológica.
E.B.: O diabetes possui uma relação intrincada com outras doenças como a obesidade e a hipertensão arterial. Os atuais tratamentos (incluindo medicamentos) conseguem lidar de modo satisfatório com esse aspecto da enfermidade?
M.I.: Não. O tratamento mais abrangente é a mudança intensiva de hábitos de vida, com perda e manutenção de peso. Infelizmente, quando aplicada em estágios mais avançados da doença, a fase clínica do diabetes, esse tratamento por si só não é mais suficiente, requerendo também medicamentos que podem aumentar a obesidade.
A escolha dos medicamentos deve ser criteriosa, baseada na sua capacidade demonstrada em prevenir os desfechos crônicos do diabetes, não apenas no seu novo e potencialmente importante mecanismo de ação, demonstrado por parâmetros bioquímicos e ou fisiológicos.
E.B.: A senhora coordena o Estudo Brasileiro de Diabetes Gestacional. Qual tem sido a contribuição da pesquisa para a investigação da enfermidade?
M.I.: O Estudo Brasileiro de Diabetes Gestacional - EBDG optou por investigar o Teste de Tolerância à Glicose com 75g (TTG-75g) em 5 mil mulheres brasileiras, como preconizado para o diagnóstico do diabetes fora da gravidez. Ao mostrar que esse teste é capaz de predizer desfechos clínicos de relevância na gravidez, como macrossomia fetal, pré-eclampsia e mortalidade perinatal, contribuiu para direcionar o uso do TTG com 100g em 3h para o TTG com 75g em 2h.
O estudo permitiu também validar estratégias de rastreamento pela glicemia de jejum, dispensando o teste de sobrecarga com 50g de glicose. Numa linha de análise das causas da doença, confirmou que seus fatores de risco clássicos são aqueles associados ao diabetes tipo 2 e identificou dois novos fatores de risco, na ocasião não demonstrados sobre o diabetes gestacional, como a deposição central de gordura e a baixa estatura.
E.B.: Quais são os desafios que o diabetes ainda apresenta?
M.I.: O maior desafio é a prevenção do diabetes tipo 2 e suas complicações. Como as pessoas estão vivendo mais tempo, está aumentando o número de pessoas com diabetes e a duração de sua doença. A meta é que os anos de vida ganhos sejam de maior qualidade, minimizando complicações como dor, cegueira, doença cardiovascular, doença real, entre outros.